Sem dinheiro para comprar uma peruca, a gerente de marketing Elizabethe de Azevedo, 34 anos, optou por usar lenços. Pela segunda vez em sua vida ela trava uma batalha contra um câncer, desta vez na mama direita. Há três anos, foi submetida a uma mastectomia para a retirada da mama esquerda. O que ela não contava é que sairia da sessão de quimioterapia, nesta quarta-feira (3), com cabelos novos e pretos, como eram os seus antes da doença aparecer. Ela e outras pacientes na mesma situação receberam a doação de perucas sofisticadas, made in França com cabelos verdadeiros e sintéticos.
O local triste e angustiante onde tomam a medicação, no Hospital Mário Pena, transformou-se em um verdadeiro salão de beleza, onde não faltaram lágrimas e sorrisos. “Sempre fui muito vaidosa, mas com a doença tenho outras prioridades e não posso me dar ao luxo de comprar uma peruca que, para mim, é um passo para me sentir próxima da cura”, disse Elizabethe.

Elizabethe: ‘A peruca é um passo para me sentir próxima da cura’ (Foto: Luiz Costa)
Foram doadas 11 perucas femininas, sendo sete novas, e alguns turbantes. É a primeira vez que o hospital recebe uma doação deste porte, de acordo com o diretor-geral da instituição, Éder Lúcio de Souza. “Às vezes recebemos uma ou outra peruca usada para doar”, disse Souza.
As empresárias Yana e Fernanda Tompa, do Núcleo de Terapia Capilar (antigo Perucas Vilma), revelaram que o preço das perucas doadas varia de R$ 900 a R$ 4 mil. “Não vendemos peruca usada e resolvemos guardar para doar. As novas, que estão sendo doadas, é por troca de tendências”, disse Fernanda. Com carinho, ela e a mãe ajeitaram as perucas nas pacientes, cortaram o que foi preciso e deram instrução para uma melhor conservação dos produtos.
A dona de casa Nelcione Ozana Diniz, 50 anos, contou que há um mês, seu cabelo caiu completamente após iniciar a quimioterapia para tratar um câncer na mama direita. “Olhava no espelho e chorava o tempo todo. A queda do cabelo para uma mulher dói mais que o tratamento”, desabafou. Emocionada ao receber a peruca francesa, que na loja não custaria menos que R$ 2 mil, a dona de casa chorou de felicidade.
Já a doméstica Eleneci Mendes Pereira, 33 anos, que ganhou de parentes uma peruca loura, saiu do hospital com o cabelo castanho semelhante ao seu original. “Há muito tempo não me sentia tão feliz”.
O impacto da queda do cabelo para uma mulher é tão forte como a notícia do diagnóstico de câncer, como observa a psicóloga da instituição, Andrea Pereira Gazzinerri. Ela destaca que a peruca é uma ferramenta a mais no tratamento, uma vez que as pacientes começam a se aceitar melhor. “Sem cabelo, olhares preconceituosos ou assustados acabam mexendo com a autoestima das pacientes. Muitas se trancam dentro de casa. Poder se olhar no espelho com cabelo as deixa mais felizes e consequentemente auxilia no tratamento que conta muito com o emocional”, concluí a psicóloga.
Fonte: Jornal O Tempo
